Já dizia sabiamente minha professora na FGV, Cecília Bergamini, que ninguém motiva ninguém.
Isso é um fato. Fatores como bônus variáveis, por exemplo, funcionam como mero condicionamento, ou seja, estímulos externos que levam a um certo comportamento desejado e que, quando deixam de existir, levam junto embora o comportamento estimulado.
Motivação, seja no setor público ou privado, é na verdade algo muito mais complexo e inerente a cada indivíduo, é a "ânima", força impulsora interna, que chamamos usualmente de paixão ou "aquilo que faz seus olhos brilharem."
Cabe ao bom chefe (ser chefe é fácil, difícil é ser um bom e justo chefe), ao verdadeiro líder, conhecer seus funcionários para identificar as verdadeiras motivações internas de cada um, buscando aliar o "ânima" de cada indivíduo com os objetivos e necessidades da organização. O discurso é lindo, a prática é bem diferente.
Na lógica de mercado do setor privado, ele cai por terra na grande maioria das empresas, subjugado pela força do lucro. "Não gosta de fazer isso?! Te demito agora e já tem 10 na fila querendo seu cargo". A espada ameaçadora da demissão assusta e mantém o funcionário, mesmo que desmotivado, sob controle.
No caso do setor público, a estabilidade no cargo protege o funcionário de perseguições políticas e demissões indiscriminadas. Mas acaba levando muitas vezes à acomodação do funcionário pela frequente ausência da meritocracia e políticas efetivas de avaliação de desempenho.
Num ambiente onde o processo de recrutamento e seleção (concurso público) avalia apenas o C do CHA das Competências (Conhecimentos teóricos, Habilidades práticas e Atitudes comportamentais) e há a estabilidade, muitas vezes o funcionário fica desmotivado por ocupar uma função que não tem relação com seu perfil de competências (falha do concurso e falta de estágio probatório que funcione), mas se conforma e se acomoda com a estabilidade, por medo de não conseguir um outro emprego melhor.
Ou seja, a função do verdadeiro líder no setor público é mais importante ainda que no setor privado, pois ele precisa de fato ter a sensibilidade para conhecer seus funcionários, identificar qual tipo de trabalho se adequa melhor ao perfil de cada um e ainda convencer o funcionário a fazer este trabalho, envolvê-lo e efetivamente motivá-lo e estimulá-lo: ser seu parceiro. Quando o chefe no governo tenta usar a força e hierarquia para mandar no funcionário, a burocracia se fecha e se volta contra ele, gerando um imobilismo nas ações de governo. É preciso ao bom líder no governo ter sensibilidade tecnopolítica e negociar constantemente com seus funcionários, buscando sempre um denominador comum, um meio-termo entre os anseios do funcionário e as necessidades do governo.
Pela minha experiência de dez anos em governo, me arrisco a esboçar uma tipologia do servidor público concursado no Brasil. Há aqueles individualistas (ou carreiristas), preocupados apenas com seu aumento salarial e de poder. Há também os servidores corruptos e os servidores desidiosos (preguiçosos mesmo). Podemos observar também os servidores “carregadores de piano”, sempre buscando realizar bem sua tarefa não importa a circunstância ao seu redor (são, em sua maioria, servidores recém-concursados, no início da carreira). E há finalmente a categoria mais numerosa: a dos incrédulos e desmotivados. Ele é o “carregador de piano” de ontem; ele já foi idealista e determinado, mas aos poucos se desiludiu com as seguidas trocas de governo, as descontinuidades de boas ideias e as repetições de erros. Sua maior diversão é fazer piadas com os novatos e ingênuos carregadores de piano, e agindo assim acaba contribuindo para transformá-los também em céticos, mantendo o ciclo de desmotivação.
De todos os grupos dessa tipologia, os incrédulos e céticos são os que mais facilmente conseguem ser transformados em servidores motivados, eficientes e felizes, bastando para quebrar este ciclo vicioso efetivamente ouvi-los, levar em conta nas decisões suas valiosas experiências e conhecimento do funcionamento e da história da máquina governamental e envolvê-los no planejamento e realização do trabalho.
Para encerrar, quando pensamos em resistência à mudanças e zona de conforto, leia a tirinha abaixo e veja como muitas vezes reproduzimos comportamentos mecanicamente, sem questionar ou entender seus reais motivos. Isso é muito frequente na Administração Pública, onde muitas vezes nem se tenta fazer alguma mudança porque há resistência ou existe a famosa lenda de que "uma certa lei impede" - quando, na verdade, muitas vezes essa tal lei é apenas folclore, nunca chegou a existir, era apenas um pretexto para manter-se o status quo.
Zona de conforto, é uma tendência para todo ser humano, mas que tende a ser potencializada na área pública e precisa de choques efetivos de boa liderança para ser rompida.





